Partindo do conceito de servidão moderna, presente no sistema de produção e corte da cana do açúcar no Brasil, faz-se uma reflexão crítica sobre uma sociedade que se pretende utópica, mas que na realidade se constrói como um sistema de alienação do ser humano, regido por um esquema de produção que promove a desigualdade como critério de progresso. A ilusão da escolha oculta o estado de decadência de uma ideologia económica e mercantil por excelência. O homem máquina deixa-se possuir pelo que possui. Questionar, refletir, mudar será assim tão arriscado? Ou ainda haverá um sector da nossa vida que não se deixa colonizar por este sistema?

Num Brasil profundo, onde a sobrevivência está à mercê de grandes negócios que dependem da produção manual, o ser humano submete-se a condições desumanas. O corte da cana do açúcar alimenta as grandes indústrias dos seus derivados (açúcar, álcool) por todo o mundo.

 

 

 

A precariedade, a falta de condições de vida, a má remuneração e exploração do individuo transformam os trabalhadores em escravos voluntários. Aliciados por uma remuneração melhor, os trabalhadores são apanhados numa rede de servidão moderna. A renúncia e a resignação da sua condição impede-os de se rebelarem. Os próprios contribuem para a continuidade de uma situação que se arrasta há séculos...Perante este contexto de indigência o homem ocidental goza da sua posição e do seu consumismo inconscientemente frenético, não parando sequer para pensar que, para alimentar os seus doces hábitos, há indivíduos a cortarem nove toneladas de cana por dia, sem qualquer acesso ao açúcar no seu quotidiano! O irónico é que a abundância de uns torna-se na escassez de outros.

PROJETO

TRIPALIUM

“À medida que o homem constrói o seu mundo com a força do trabalho alienado, o cenário deste mundo se converte na prisão onde terá que viver. Um mundo sórdido, sem sabor, nem odor que leva consigo a miséria do modo de produção dominante... A remodelação permanente do espaço que nos envolve justifica-se pela amnésia generalizada e pela insegurança na qual devem viver os seus habitantes. Trata-se de refazer tudo à imagem do sistema, o mundo torna-se cada dia mais sujo e barulhento, como uma usina..”

(Brient, Jean-François, Da servidão moderna, 2009).

TRABALHO:

do latim, TRIPALIUM,

instrumento de tortura

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